Eletrocardiografia (ECG ou EKG) é uma das ferramentas diagnósticas mais valiosas da medicina, oferecendo uma visão da atividade elétrica do coração. Este teste não invasivo fornece informações críticas sobre a frequência cardíaca, o ritmo e a condução elétrica, servindo como um componente essencial na avaliação cardiovascular.
Um registro de ECG apresenta-se como uma série de ondas e linhas que correspondem aos impulsos elétricos do coração. A compreensão desses componentes forma a base da interpretação do ECG:
- Onda P: Representa a despolarização atrial, aparecendo como uma pequena deflexão ascendente antes do complexo QRS. Anormalidades podem indicar aumento atrial ou problemas de condução.
- Complexo QRS: Reflete a despolarização ventricular, tipicamente a onda mais proeminente. Alterações na duração e morfologia podem sinalizar anormalidades de condução.
- Onda T: Mostra a repolarização ventricular, geralmente seguindo a mesma direção do complexo QRS. Alterações podem sugerir isquemia ou desequilíbrios eletrolíticos.
- Onda U: Ocasionalmente visível após a onda T, potencialmente representando a repolarização das fibras de Purkinje. Ondas U proeminentes podem indicar distúrbios eletrolíticos.
- Intervalo PR: Mede o tempo de condução da ativação atrial para a ventricular (normal: 0,12-0,20 segundos). O prolongamento sugere disfunção do nó AV.
- Intervalo QT: Representa o tempo total de despolarização e repolarização ventricular. O QT prolongado aumenta o risco de arritmias perigosas.
- Segmento ST: A linha isoelétrica entre o QRS e a onda T. Elevação ou depressão frequentemente indica isquemia miocárdica ou infarto.
Um método de avaliação estruturado garante uma interpretação completa do ECG:
Calcule a frequência cardíaca usando o método dos 300 (conte os quadrados grandes entre as ondas R) ou o método dos 6 segundos (conte os complexos QRS em 30 quadrados grandes e multiplique por 10). A frequência de repouso normal varia de 60 a 100 bpm.
Avalie a regularidade do ritmo medindo os intervalos PP e RR. Intervalos consistentes indicam ritmo regular, enquanto a variação sugere irregularidade. Analise a presença, morfologia e relação da onda P com os complexos QRS.
Avalie o eixo elétrico do coração examinando a direção do complexo QRS nas derivações dos membros. O eixo normal varia de -30° a +90°. Desvios podem indicar aumento ventricular ou anormalidades de condução.
Examine cada onda em busca de anormalidades na duração, amplitude e morfologia. Compare os achados em múltiplas derivações para identificar padrões.
Interprete os achados em contexto com o histórico do paciente, sintomas e outros dados clínicos. Muitas alterações no ECG requerem correlação clínica para um diagnóstico preciso.
Distúrbios do ritmo cardíaco representam achados frequentes no ECG:
- Fibrilação Atrial: Caracterizada por ritmo irregularmente irregular, ausência de ondas P e linha de base fibrilatória.
- Taquicardia Ventricular: Apresenta-se com complexos QRS largos (>0,12s) em alta frequência, muitas vezes sem ondas P precedentes.
- Bloqueios Cardíacos: Graus variados de atraso na condução AV, desde prolongamento do PR (1º grau) até dissociação completa (3º grau).
O ECG desempenha um papel crucial no diagnóstico de doença arterial coronariana:
- Infarto Agudo do Miocárdio com Elevação do Segmento ST (IAMCSST): Elevação do segmento ST >1mm em derivações contíguas indica oclusão coronariana aguda.
- Síndrome Coronariana Aguda sem Elevação do Segmento ST: Pode mostrar depressão do ST, inversão da onda T ou alterações inespecíficas.
Distúrbios nos eletrólitos séricos produzem padrões característicos no ECG:
- Hipercalemia: Ondas T altas e pontiagudas, alargamento do QRS e eventual padrão de onda senoidal.
- Hipocalemia: Depressão do ST, ondas T achatadas, ondas U proeminentes.
ECGs padrão de 12 derivações fornecem informações elétricas tridimensionais:
- Derivações dos Membros (I, II, III, aVR, aVL, aVF): Fornecem informações do plano frontal
- Derivações Precordiais (V1-V6): Oferecem perspectiva do plano horizontal
Grupos específicos de derivações correlacionam-se com regiões particulares do coração, permitindo a localização de anormalidades.
- Bloqueios de Ramo: QRS largo com alterações morfológicas específicas
- Padrão WPW: Intervalo PR curto com onda delta
- Padrão de Brugada: Elevação do ST precordial direita com morfologia específica
Embora o ECG forneça informações cardíacas inestimáveis, os profissionais devem entender seus limites:
- Pontos Fortes: Não invasivo, barato, resultados rápidos, excelente para análise de ritmo
- Limitações: Instantâneo estático, pode perder eventos transitórios; ECG normal não exclui doença cardíaca
Avanços contemporâneos incluem dispositivos de ECG portáteis, monitores habilitados para smartphone e interpretação assistida por IA, expandindo o potencial diagnóstico do ECG.